segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Lúcia Norma Genovese Falcucci

Lúcia Norma Genovese Falcucci 
tem 80 anos, é descendente de italianos e, 
como quase todos os seus colegas, 
começou a vida no campo. 
Trabalhadeira e empreendedora, já passou 
por fábricas, feiras e hoje escreve poesia


Balas e Poesia

Nasci num sítio em Igarapava, em 15 de julho de 1932. Ainda criança nossa família (eu meus pais e três irmãos) foi para a cidade onde sofremos muitos porque meu pai não tinha profissão.
Aos 10 anos comecei a trabalhar como babá e aos 13, já na cidade de Uberaba, fui trabalhar na fábrica de balas Ibérica. Quando tinha 15 anos, finamente nos mudamos para Ribeirão Preto, onde estou até hoje. Aqui meu primeiro emprego também era doce – mais uma fábrica de balas, dessa vez, a Olímpia, que ficava na avenida Saudade.
Com a necessidade de ganhar mais para ajudar a família, continuei no caminho das balas e passei a trabalhar na fábrica Martineli. Até que mudei de ramo e me empreguei na Camisaria Duas Américas, onde caseava e pregava botões. Só que os doces pareciam gostar mesmo de mim e fui chamada para trabalhar na sorveteria Bimbo, onde fiquei até os 18 anos.
Já maior de idade passei a trabalhar na Cia Antárctica, mas ao me casar fui demitida, porque na época não admitiam mulheres casadas na empresa. Eu e meu marido, então, abrimos um bar, mas não deu certo. Pegamos, então, dois pontos na Feira, onde trabalhei por muito tempo até adoecer. Vendia adivinha o que? Isso mesmo: doces.
Mas não parei, não. Comecei a pintar estátuas de gesso e panos de prato que vendia até muito bem. Hoje sou viúva há 25 anos tenho três filhos, 6 netos e 3 bisnetos. Apaixonada por Litertura desde criança, editei 3 livros de poesias: “Sonho de Cristal”, “Ingrato Beija-Flor” e “Flor do Campo”. Participei de alguns concursos e ganhei medalhas e troféus.
Atualmente, no PIC, faço ginástica na praça  Mortari. Além disso, canto no Coral Vozes do Círculo Operário da Vila Tibério. O que posso dizer é que minha vida valeu a pena. Sou uma pessoa feliz, cheia de amigos e com belas e doces memórias.



Leonor Dalva Barros Rea


Muito vaidosa e sedutora, 
Leonor Dalva Barros Rea 
não confessa a idade, mas capricha bastante 
no visual e não recusa atividade e diversão.  
Segundo ela, o grande aprendizado que
 teve na vida foi trabalhando como professora e convivendo 
com o universo de um hospital.



Lições de Vida


Embora eu não tenha nascido nessa maravilhosa cidade, me sinto uma verdadeira ribeirão-pretana. No ano de 1969, saí da pacata cidade de Sales Oliveira, junto com minha mãe, Antonia, para lecionar no Curso de Alfabetização de Adultos, que funcionava no Grupo D. Alberto José Gonçalves, na época localizado na rua Edgar Cajado esquina com avenida Saudade.
Meu pai, Alberico, só vinha nos finais de semana, porque era vereador em Sales, mas infelizmente, morreu naquele ano. Na mesma escola, à noite eu dava aulas de alfabetização e de dia era professora substituta. 
No primeiro dia, ao entrar na classe, composta em sua maioria por adolescentes, confesso que fiquei muito assustada, pensando: “E agora? E se eles não gostarem de mim e começarem a fazer algazarra? Mas para minha surpresa, os jovens me receberam com entusiasmo e admiração. Foi amor à primeira vista de ambas as partes.
Eu me esforçava muito para eles aprenderem e os incentivava a continuarem a estudar no futuro. Felizmente, muitos daqueles alunos fizeram faculdade e outros tornaram-se bancários, comerciantes, mecânicos e hoje têm um ofício digno e são bem sucedidos.
Recordo-me daquela época com muita saudade – quando o aluno amava e respeitava o professor e se preocupava com ele. Quando terminava a aula, muitos deles me acompanhavam até o ponto de ônibus para me proteger. Outros me presenteavam com ramalhetes de flores, balinhas de canela, toalhinhas de crochê e sempre muito carinho.  Nunca os esqueci - foi uma época extremamente marcante e feliz da minha vida.
 Nessa época eu era solteira e nos finais de semana ia para a casa do meu cunhado, Joster Barbosa, que tinha uma casa de fotos na Avenida Saudade. Ele era um fotógrafo muito popular na época. Sua loja ficava ao lado do Cine Santana, onde eu e minhas sobrinhas assistíamos a filmes famosos da época, como os do Mazaroppi, entre eles, Casinha Pequenina, Tristeza do Jéca e outros. 
A fila do cinema era enorme, dobrava a esquina e nós nos divertíamos bastante. Às vezes também passeávamos na Praça XV, em volta da fonte luminosa, onde os jovens se divertiam. Nessa época, não se usava ir para baladas e barzinhos. Íamos ao Bosque Municipal, às quermesses e a alguns bailinhos, onde ensaiávamos passos do Toni Tornado.
Assisti a alguns filmes muito bons também no Pedro II, que na época funcionava como cinema. Tinha também o Cine São Jorge, lá perto da Francisco Junqueira, que era maravilhoso, enorme e passava ótimos filmes. Depois foi fechado e esquecido como muitos outros – Cine Centenário, na esquina da Praça XV, por exemplo.
A gente paquerava bastante e foi numa dessas paqueras que conheci meu falecido marido. No carnaval, os desfiles de Escola de Samba eram realizados na Avenida Saudade. Eu e minhas sobrinhas colocávamos as cadeiras em frente ao Foto Joster e assistíamos tranquilamente ao maravilhoso desfile das escolas.
No bairro dos Campos Elíseos eram realizados também outros eventos, como a quermesse do asilo Padre Euclides, que era famosa, bem organizada e muito bem frequentada. Muitas jovens encontraram seus futuros maridos na quermesse.
A pracinha Rômulo Morandi e a Santo Antonio também eram frequentadas por jovens nos finais de semana, que iam pra lá se divertir e namorar. No mesmo prédio da Igreja ao lado, funcionava o Cine Santo Antonio, onde eu tive a oportunidade de conhecer o famoso rei do baião, Luís Gonzaga. Ribeirão naquela época era maravilhosa, porque quase não tinha violência.
Lecionei em vários cursos de alfabetização, mas o salário era pequeno. Eu era arrimo de família, minha mãe estava doente e em 71 prestei concurso por Hospital das Clínicas e fui aprovada como escriturária. Nos primeiros dias de trabalho fiquei assustada porque não estava acostumada a ver tanto sofrimento. Comecei a chorar e fui parar no médico. Tive vontade de abandonar aquele emprego e voltar correndo para a escola. Mas com o passar dos dias, fui me adaptando à minha nova profissão. A enfermeira chefe da época e alguns funcionários foram muito bons e colaboraram muito comigo.
Em 72 entrei na Faculdade, no curso de Letras, na Moura Lacerda, onde anteriormente eu cursara Pedagogia. Eu trabalhava um período, ia pra Faculdade e à noite continuava lecionando. Ficava cansada, mas era jovem. Dava pra aguentar.
No ano seguinte, me casei, mas continuei trabalhando e estudando Dois anos depois tive minha filha, depois meu filho. Passei num concurso para lecionar Português e Inglês, mas não podia me mudar – tinha meu marido e minha mãe aqui e eles precisavam muito de mim.
No HC eu aprendi muito. É uma verdadeira escola de vida, onde a gente aprende a crescer como ser humano e a ver que não somos nada e não temos que ter orgulho – de um momento para outro a nossa vida pode desmoronar e passarmos a depender do carinho e da ajuda dos outros. A doença nos fragiliza e nos deixa sensíveis.
Também fiz muitas amizades no HC. Aprimorei meus conhecimentos, pude proporcionar uma vida melhor aos meus filhos e saí de lá bem melhor do que entrei, porque aprendi o verdadeiro valor da vida. Ali conheci excelentes profissionais que tinham vocação e se entregavam ao trabalho, como o médico que chorava quando algum paciente morria, ou os auxiliares de enfermagem que tratavam os pacientes com verdadeira dedicação, como se fossem pessoas da família.
Aprendi também que a fé, o otimismo e a vontade de viver ajudam muito na alta hospitalar, assim como a presença e o carinho dos profissionais. 
Desde essa época venho refletindo que os funcionários da área da saúde mereciam ser mais valorizados pelo governo e ter melhor remuneração. Trabalham muito, sob muita tensão, porque um simples erro pode ser fatal, por negligência ou falta de conhecimento de profissionais mal preparados.
Minha função era de grande responsabilidade porque eu distribuía a medicação aos pacientes de acordo com a prescrição dos médicos. Não podia errar. Alguns pacientes vinham cantar Carinhoso comigo, autorizados por minha chefe. E no mês de Junho fazíamos uma festa junina para os pacientes, quando eu me fantasiava e dançava pra valer. Cheguei inclusive a ser a noiva da festa. Na hora do café, eu costumava contar histórias tristes da minha vida de um jeito engraçado, fazendo todo mundo rir.
Mas como tudo passa, depois de 30 anos de trabalho, em 2000 me aposentei. Agradeço a Deus pela oportunidade de exercer esses dois ofícios - professora e profissional da saúde, que tanto me ensinaram a conhecer melhor o ser humano e a valorizar a vida.
As rugas marcaram o meu rosto, mas não enrugaram os meus sentimentos. Me sinto jovem e descobri que o segredo da eterna juventude é a alegria, o entusiasmo. Hoje, além de curtir filhos e netos, faço teatro no Núcleo da Terceira Idade, frequento bailes, onde arrumei um namorado maravilhoso, faço ioga, participo de desfiles de moda e assisto a peças no teatro Pedro II. Já me candidatei a Miss Terceira Idade, que ajuda muito a levantar a auto-estima. Tive o privilégio de ser classificada em terceiro lugar, mas fui eleita Miss Simpatia, com uma festa maravilha, fotógrafos e televisão.

José Cândido Cesário


José Cândido Cesáreo, 80 anos, 
aposentado do Hospital das Clínicas, 
três filhos, dois netos, uma neta. De espírito 
alegre e colaborativo, Zézinho, como é chamado, 
é um agregador, amigo de todo mundo. 
Sua grande paixão, porém, sempre foi o teatro.



A Vida é um Teatro


Nasci em 1930 e desde 35, ou seja, com cinco anos, frequentava o Teatrinho Infantil, na rua Joaquim Nabuco, na Vila Tibério. Nessa época os teatrinhos eram montados nos fundos de quintal, com coberturas de lona, como se fosse um pequeno circo.

Neles encenávamos histórias como A Mula sem Cabeça, O Currupira, Saci Pererê, além de levarmos ao palco alguns fatos reais como o acontecido com o senhor Angelim Furlaneti, o popular “Spaka montanha”. Esse cidadão, de físico avantajado e atlético, além de pai alegre e trabalhador, era um grande comilão. Contavam que ele chegou a comer de uma vez uma bacia de macarronada e 120 bananas – e depois ganhou uma corrida. Até hoje tenho minha dúvidas, mas é o que falavam.
No palco, um garoto caracterizado historiava que o Spaka praticou tantos exercícios para manter a forma, sem orientação nem atestado médico, já que na época não existiam as atuais academias, que acabou deficiente físico.
Os ensaios se sucediam e as apresentações aconteciam nos finais de semana. Os ingressos eram trocados por frutas e legumes.
Entre os participantes, lembro-me, além de mim mesmo, que todos chamavam de Zé Pretinho, filho da dona Clementina; Carlos Dias, filho da dona Liberata; Nilson, da dona Ermelinda e Hortêncio “piorra”, filho da dona Tereza. O público infantil ria às bandeiradas.
No palco contávamos também curiosidades acontecidas durante a caça de passarinhos nas diversas matas próximas, como a mata de Arranha Gatos. Através das encenações, lembrávamos os “causos” alegres e curiosos do dia a dia.
Naquele período eu e meus amigos frequentávamos o curso primário no Terceiro Grupo Escolar, depois Sinhá Junqueira, situado até hoje na esquina da Praça Coração de Maria, na Vila Tibério. Até hoje quando passo por ali me emociono com as lembranças desse tempo. 
De 1938 a 43 ali estivemos. No pátio, em fila, cantávamos o Hino Nacional de cor, todas as manhãs. Depois, respondíamos a chamada pelo nome e seguíamos para as salas de aula no térreo e primeiro andar. A tabuada de um a dez estava na ponta de língua. A última professora de que me lembro foi dona Mariana – muito enérgica, mas eficiente. Com ela, aprendíamos.
Em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial, tudo parecia melhorar. Fui trabalhar numa pequena fábrica de calçados, de propriedade de um senhor chamado Pedro Campana. Buscava o couro e esticava na mão. Assim, ajudava na renda familiar com alguns “milréis”.
Foi nessa época que conheci a família do diretor teatral João Vaz, o “Fumaça”. Garçon de profissão, “Fumaça” era um apaixonado pelo teatro, e na casa dele e de sua esposa, Izerita, na rua Amador Bueno depois da Florência de Abreu, todos eram artistas. Representavam na União Geral dos Trabalhadores – UGT -, situada no primeiro quarteirão da rua José Bonifácio.
Além de ensaiarem na UGT, José e os filhos do casal também usavam a própria casa para se prepararem. Os ensaios, dos quais eu participava, eram muito pesados e o diretor bastante exigente. As cenas se repetiam quantas vezes fosse preciso e não me esqueço do “Fumaça” dizendo “Vocês nunca vão estar bons o bastante, mas mesmo assim poderão se apresentar”. Bem, pelo menos era um consolo para aqueles aspirantes a astros do palco.
Naquela época, na frente do palco, na ribalta, havia uma espécie de pequena cúpula embaixo da qual se escondia o “ponto”, na verdade o próprio diretor que, abaixado ali, auxiliava os atores assoprando suas falas enquanto batia com um lápis no assoalho.
Os textos eram pouco decorados e havia muito improviso. Da coxia, alguém com o texto da peça nas mãos auxiliava cada ator na sua entrada em cena. Quantos erros e cenas invertidas! Quanta confusão provocada pelos afobadinhos. Mas criatividade era o que não faltava e o público aplaudia de pé. E no final, o elenco artístico era sempre apresentado ao público pelo Diretor, que agradecia os participantes e anunciava nova seção para o dia seguinte.
Entre os “atores” daquela época, me lembro de Ricardo Pinatti, Aristides “Tom Mix”, João Fumaça, Izerita, Idalina, Plínio, Nilton Garcia, Neuza Garcia, Lino Fazolin, Neno Nazareno, Ary Engracia e dona Pequena, mãe do ator Lima Duarte. Alguns foram embora em busca da fama na TV e nos palcos. Aqui continuávamos a montar peças clássicas como “Onde Canta o Sabiá”, “Deus lhe Pague” e outras.
No ano de 1955 eu já me considerava um verdadeiro ator, embora ainda fosse um frangote. Por essa época fiz a Admissão ao Ginásio e depois cursei os quatro anos do ginasial no Ginásio Espírita Apóstolo Paulo, na rua São Paulo com Anita Garibaldi. Em 57, a gripe Asiática chegou pra valer e quase me levou embora. Além da penicilina e do xarope Carotenol, o limão galego ajudou a contornar a situação. Mas principalmente a visita diária do médico à nossa casa, costume comum naquela época.
No Ginásio existia um Grêmio Estudantil, uma cantina no pátio e quadra de atletismo. Aos domingos, nas matinês no palco simples do auditório, os alunos apresentavam números artísticos com músicas ao acordeon, bailados em grupo, skets humorísticos. Lembro-me do Valdir, do José e do “Deserto”. Os ingressos eram frutas e bolos, o que depois nos garantia um banquete.
Nesse tempo nasciam muitas amizades sadias entre nós. Saíamos em grupo, frequentávamos bailes em barracas de lona, lá no Barracão, hoje Ipiranga, festas de casamento, cinemas e casas de amigos no preparo dos exercícios de matemática, respeitando as exigências do professor Carlos Eduardo Martinelli.
Quando um pai mais severo de uma das moças a proibia de ir ao baile, nós muito confiantes e responsáveis, íamos até a sua casa e assegurávamos ao pai bravo que cuidaríamos de sua filha. Depois de muita argumentação, eles deixavam, mas avisavam para trazermos as donzelas antes da meia-noite com eles esperando na janela. Cumpríamos o trato à risca. Eram outros tempos.
Nesse tempo também fazíamos piqueniques ao ar livre, em chácaras de amigos. O transporte era nos caminhões com carroceria de madeira. E por conta de alguns cupidos entre os amigos, vários casais se uniram para sempre. Foi nesse tempo que conheci Abigail e começamos a namorar.
Hoje, quando nos revemos, às vezes, lembramos daquele tempo com saudade das moças que protegíamos com tanto carinho e que consideramos as “flores de companhia”.
Mais tarde passei a participar do grupo teatral do Centro Espírita, dirigido pelo diretor e teatrólogo José Papa, que me apelidou de Zé Minhoca, referindo-se ao meu físico franzino e, dizia ele, à minha esperteza. Só que, apesar da minha dedicação aos palcos, precisava me sustentar. Registrei-me como funcionário do Laboratório Torres e em 1960 me casei com Abigail, na cidade de Altinópolis.
Os ensaios teatrais, porém, continuaram sob a direção do Papa, no auditório do Centro Espírita, na Mariana Junqueira, 504. A cada quatro meses encenávamos peças do próprio Diretor, no Teatro Pedro II, entre elas “O Médico dos Pobres” e “Um Passo Errado”. Além disso, nos apresentávamos em algumas cidades da região. Desempenhei vários papéis com sucesso, em peças conhecidas como o Navio Negreiro, de Castro Alves, em que eu fazia um escravo.
No ano de 1966 aconteceu um evento inesquecível para nós, do teatro amador – o Festival da Alta Mogiana, acontecido no Salão Dom Alberto, atrás do palácio episcopal, na esquina da rua Tibiriçá com a Prudente de Moraes. A cada noite, um grupo diferente se apresentava e tudo era muito caprichado, desde a pontualidade até o guarda-roupa. Minuciosamente, cada um desses itens era levado em conta para ser avaliado.
Entre os grupos participantes estavam o Grupo Teatral Eurípedes, do José Papa, o grupo do Seminário de Brodowski; o grupo da Vila Seixas, o Teatro-Escola da Vila Tibério, o Círculo Operário dos Campos Elíseos. Um dos grupos, formado por estudantes dirigidos pela respeitada professora de português Florianette Guimarães, chocou todo mundo com um texto que trazia palavrões. Por causa disso, o Círculo Operário, que apresentara o clássico “Rei dos Reis”, mas apoiara o grupo estudantil de vanguarda, foi desclassificado, para tristeza de todo mundo. A discussão que acontecia era entre os que acreditavam que o teatro tinha a função de educar e aqueles que achavam que só tinham que representar.
Confesso que me senti fortemente surpreso ao ser anunciado como Melhor Ator. Fui calorosamente aplaudido e me prometeram o troféu Jeca Tatu, uma escultura de uns 30 centímetros que mostrava um caipira alto, magro, de cavanhaque, olhando o edifício Martinelli. Mas o troféu nunca chegou.
O tempo passou e de vez em quando, em datas comemorativas, eu participava de algum festival com dramas e skets decorados, poesias e números musicais. Após cada apresentação e durante muito tempo, os atores eram confundidos e chamados pelo nome dos personagens - Menino Henrique, Jonas, Pai João etc.
Entre 1978 e 93 trabalhei como Auxiliar de Enfermagem do Hospital das Clínicas, no campus da USP, onde tive a oportunidade de me apresentar numa peça sobre Lixo Hospitalar. O personagem principal chamava-se Beldo, um caipira lambão, catador de papel. Eu fiz o Petrolino.
Depois que me aposentei, lancei meu primeiro livro, “Sonhos da Minha Infância”, de contos. Por volta do ano 2000, de volta aos palcos, atuei numa pecinha de Lúcia Taveira sobre o mosquito da Dengue, para o setor de vetores da prefeitura, sob a direção de Antonio Sartori. Com esse meu físico, fiz, claro, o próprio aedes aegypti.
A peça teve várias apresentações – no auditório do Sesc, na Câmara Municipal, no Sesi e até no auditório do Teatro Pedro II, além da Faculdade de Enfermagem, numa sala de aula repleta de alunas.
Montamos também a peça História de Maria no núcleo da Terceira Idade dos Campos Elíseos, em que eu fazia um preto velho. A peça foi apresentada num Festival, na cidade de Jordânia, em Minas Gerais, no vale do Jequitinhonha. Ficamos uma semana - cada noite havia uma apresentação no grande palco ao ar livre, na Praça Central.
Os mesmos personagens e outros continuaram no Núcleo da Terceira Idade da rua Aliados com Avenida Saudade, sob a direção de Antonio Santana. Sempre que a peça era sobre a Dengue, eu era o protagonista, entre elas numa apresentação feita na frente do altar da igreja Santa Teresinha, na vila Tamandaré, depois da missa do padre Chico.
Hoje continuo um entusiasta do teatro. E com meus companheiros do Núcleo, sempre que possível ensaiamos e montamos peças. Além disso, estou sempre com disposição de encontrar todo mundo e aprender. Mas lembrando sempre dos bons tempos que já vivi nessa cidade abençoada e que espero viver ainda por muito tempo.

A construção silenciosa e anônima da cidade

Ouvir o outro, ouvir principalmente o velho, numa sociedade imediatista e desfocada como a nossa, é cada vez mais raro. O projeto desse livro nasceu do desejo, não só de escutar o que os velhos têm a nos contar, mas de levá-los a relembrar trechos de suas vidas, interagir outra vez com esses pedacinhos de sua história pessoal e registrá-las através da escrita.
Mais que isso, desejávamos resgatar lembranças especialmente ligadas à cidade de Ribeirão Preto e a sua história, em vários tempos e espaços diferentes. Dessa forma, além de imortalizar e divulgar relatos pessoais, estaríamos levantando e preservando parte da memória da cidade.
Desenvolvido através do PIC – Programa de Incentivo Cultural, da Secretaria Municipal da Cultura, o projeto Memória e História- Lembranças de Ribeirão foi realizado durante o ano de 2012, resultando agora na publicação deste livro que tenta contar de forma espontânea, e com a veracidade dos relatos orais, um pouco mais da trajetória de Ribeirão ao longo das décadas.
Trabalhando em parceria com os Núcleos de Terceira Idade da Prefeitura, abrimos a experiência para dez idosos que, durante 8 meses, se reuniram semanalmente para lembrar, contar, trocar, se emocionar, rir muito, reviver e, finalmente, escrever alguns pedaços de sua história vividos em Ribeirão.
O resultado é o registro de um rico mosaico de experiências que se alargam e extrapolam a vida privada para se situar no contexto da comunidade ribeirão-pretana em diferentes momentos, lugares e classes sociais. Os footings nas praças, os antigos cinemas, o teatro amador, os espaços de congraçamento que já não existem, os companheiros e amores perdidos, a vida rural, a política, o trabalho duro nas fábricas, a construção de famílias, os costumes, a moda, enfim reúne-se aqui um pequeno, porém riquíssimo retrato da cidade e de seus cidadãos entre os anos 30 e a época atual.
Esperamos que esse trabalho colabore para que a memória da cidade seja cada vez mais restaurada e divulgada, não apenas pelos relatos e documentos oficiais, mas principalmente pela voz de seus protagonistas anônimos e tantas vezes esquecidos – aqueles que, nos bastidores e quase sempre em silêncio, construíram a Ribeirão que tanto amamos.

Carmen Cagno